A arte de uma boa redação
O papel em branco intimida. Os pensamentos se misturam com tanta rapidez que fica difícil organizar tudo e colocar na ponta do lápis. Como desenvolver o tema? O que escrever? O título vem antes ou depois do texto? Não é fácil. Especialmente quando o tempo é curto e a exigência é grande. Por não ser feita de fórmulas, muitos vestibulandos acabam se esbarrando na redação. A prática é o verdadeiro calcanhar de Aquiles da maioria dos candidatos a vagas nas universidades.
Mas nem tudo é motivo para pânico. Especialistas afirmam que mesmo aquele aluno que não tem a menor vocação para o desenvolvimento de textos pode se sair bem. Algumas dicas, nestes casos, valem ouro. “Para ter boa argumentação é preciso estar bem informado, para saber opinar é preciso ter opinião e para escrever é preciso ler muito”, diz a coordenadora de Língua Portuguesa do cursinho Etapa, Célia Passoni.
Segundo ela, qualquer tipo de leitura é válido. “Gibis, revistas, sites, dicionários. Tudo é bem-vindo. Claro que se for possível consumir livros ou jornais de bom conteúdo é melhor ainda”, aconselha.
Fazer uma reflexão dos textos já produzidos também é importante. A ideia é prestar atenção nos erros e reescrever o conteúdo sempre que possível. “Quando lemos em voz alta o que escrevemos ou quando outra pessoa avalia nosso material sempre se percebe algum atropelo. Seja uma frase mal ritmada, seja um problema de concordância. Como no vestibular não temos essa chance, devemos explorar essa prática ao máximo antes da prova e reescrever novamente o texto com as partes que foram corrigidas. O momento em que o aluno lê com olhar crítico é o que chega mais perto do método usado pelas bancas avaliadoras”, alerta.
Atenção especial ao tema
Um texto mal estruturado, no entanto, não é o único fator prejudicial à performance do aluno. Se o tema proposto não for abordado com proficiência, todo o esforço pode ser em vão. Para o coordenador de gramática, texto e redação do cursinho Anglo, Francisco Platão Savioli, este é o momento em que a banca avalia se os estudantes estão atentos aos fatos que acontecem no mundo ou se estão limitados ao seu universo interno. As faculdades, de acordo com ele, querem que pessoas bem informadas e com bons conhecimentos ocupem as vagas que oferecem.
“O aluno deve estar atento ao que é pedido no enunciado da redação. Se o tema não for abordado é certo que será reprovado. Os estudantes ficam muito preocupados em decorar regras gramaticais porque acreditam que um bom texto é aquele correto gramaticalmente. Muitas vezes esquecem de dar atenção à proposta”, lamenta.
Para aprimorar o conhecimento, na visão de Savioli, é preciso não apenas ler, mas, principalmente, aproveitar a leitura. “Sempre proponho uma atividade para meus alunos que consiste em pegar um texto dissertativo de jornal ou revista e responder algumas perguntas como: “Qual a questão posta em debate no texto?”; “Qual a posição do redator?”; “Que argumentos ele usa para defender sua proposta?”; “Quais argumentos o redator rebate?”. Este exercício melhora a qualidade dos textos dos estudantes e os faz aprender a como construir uma boa retórica. E eles só precisam se dedicar cerca de 20 minutos por dia”, ensina.
A técnica funcionou para Fernanda Ayres, estudante do primeiro semestre do curso de jornalismo da Universidade Metodista, em São Paulo. “Meus professores sempre me alertaram sobre essas dicas. Como no curso que eu desejava o peso para a nota da redação era alto, fiquei preocupada e treinei muito antes da prova”, diz, confessando já ter certa intimidade com a língua portuguesa. “Sempre fui boa em redação, desde a escola, e acho que isso contribuiu para o meu desempenho. Mas esse não foi o único fator. Me dediquei bastante durante todo o processo”.
Nova ortografia e literatura
Além de aprimorar constantemente a escrita, o estudante deve estar atento às mudanças pela qual os vestibulares passam todos os anos. A nova ortografia é uma delas. Desaprender e aprender de novo as regras gramaticais não é fácil, muito menos quando o novo formato será aplicado numa prova que gera em muitos alunos sentimentos heterogêneos, como ansiedade, medo e insegurança.
Mas, os especialistas alertam: apesar das mudanças, há conteúdos que certamente continuarão sendo cobrados nas questões de português em ambas as fases: as obras de literatura que compõem a lista de leitura obrigatória. E nestes casos o segredo para um estudo eficiente é iniciar o quanto antes a leitura programada de cada livro.
“É preciso desenvolver uma leitura concentrada de cada obra. Se o aluno não leu nenhuma delas durante o período escolar, é ainda mais importante fazer isso com calma”, diz Célia Passoni. Mas quais obras devemos ler primeiro? Como saber quais são os mais importantes?
Para Célia, uma boa sequência priorizaria os livros Capitães de Areia, de Jorge Amado, O Cortiço, de Aluísio Azevedo, Memórias de um Sargento de Milícias, de Manoel Antônio de Almeida, Vidas Secas, de Graciliano Ramos e A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós.
“O livro de José de Alencar, Iracema, também não é complicado e pode ser um dos primeiros. O único problema que possui muitas expressões indígenas. Mas se o aluno estudar um pouco sobre o contexto no qual a obra foi escrita, vai compreender melhor do que se trata”, sugere.
O título da redação é outro assunto que gera controvérsias. Afinal, é ou não obrigatório? No vestibular da Unicamp, por exemplo, se na prova não houver nada que especifique sua obrigatoriedade, colocá-lo ou não torna-se facultativo. Mas Célia aconselha. “O título resume a ideia a ser trabalhada no texto e estimula a curiosidade do leitor. Por isso, mesmo que fique a critério do vestibulando, deve ser colocado e muito bem trabalhado. Usar um título genérico é o mesmo que um convite para que a banca não se interesse pelo seu material”, afirma.
Por fim, capriche na letra, procure ser objetivo e não deixe de fazer a revisão final. Ah! Uma dose de criatividade também não faz mal a ninguém.
Texto: Vanessa Baldacci
Escrito por admin em 7 dezembro, 2009 dentro Destaque, Matéria.



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