O mundo ficou pequeno demais!
Multifacetado, Marcelo Sando viaja compartilhando seu conhecimento e ministrando consultorias de meio ambiente. A partir desta edição vai contar sobre suas experiências por aí
Quando tinha 13 anos, peguei um mapa do bairro onde morava, uma caneta, uma régua e um compasso. Marquei com a caneta os lugares que eu mais frequentava durante a semana. Foi aí que percebi que minha escola ficava há três quadras da minha casa, que o curso de inglês há cinco e a natação há duas.
Foi aí que peguei novamente o compasso, coloquei a agulha em cima da minha casa e abri até o grafite chegar no lugar mais distante da minha rotina. Num giro no mapa percebi que minha vida estava limitada apenas há um raio de 3 km da mesma casa que vivia desde meus 7 anos.
Depois desse dia, minha vida mudou completamente: decidi aumentar meus limites. Comecei a andar a pé, de ônibus, de metrô e a pé novamente, com uma única missão na cabeça: perder-me pela cidade. Ampliei minhas fronteiras! Um dia andei 3 km, no outro 15 km e a distância foi aumentando, até que a cidade ficou pequena demais para os anseios dos meus pés e olhos. O mundo era grande demais para eu ficar parado muito tempo no mesmo lugar.
A primeira aventura
Certo dia conheci dois caras que andaram a pé do Oiapoque ao Chuí. Depois daquela conversa decidi fazer um mochilão pelo Nordeste. Com apoio e desespero dos meus pais parti para minha primeira aventura: viajar sozinho, com uma mochila nas costas, com poucos planos na cabeça e com quase nenhum dinheiro no bolso. Criei algumas regras básicas, um código de viagem: conversar com todas as pessoas que cruzassem o meu caminho; não planejar nada, deixar o dia decidir o que vai acontecer; fazer tudo o que der vontade e fazer nada que não der vontade; sentir tudo o que tiver para sentir: medo, alegria, pânico, calma, tensão; testar meus limites e descobrir minhas limitações; me conhecer o máximo possível, me entender e me aceitar, sem resistências, sem julgamentos e sem apegos.
Fui muito influenciado por alguns livros, filmes e aulas que assisti algumas vezes na USP. Ainda no colégio, faltava nas aulas, que não supriam minha demanda por conhecimento, para buscar outras coisas em algumas universidades como cinema, sociologia, antropologia, filosofia. Minhas viagens nunca foram turismo. Eram longos e profundos mergulhos de curiosidade, exploração e descobertas. Viajar sempre foi uma ciência e uma arte, algo a ser estudado e pesquisado, criado e vivenciado. Na verdade sempre foram duas jornadas, para o lugar onde estava indo e para dentro de mim.
A primeira mochila foi escolhida com carinho e virou minha companheira. Na frente estava escrito “NO STRESS” e esse foi o lema e o tema daquele mochilão. Desde a primeira viagem descobri algumas coisas: de tudo o que se leva na mochila quase nada é necessário, vivi com a mesma roupa durante dias. De fato é possível viajar o mundo todo com duas calças, três camisetas, uma jaqueta, três pares de meias, três cuecas, um gorro, um par de luvas, um blusão, um cobertorzinho (daqueles de avião), escova de dente, um sabonete, fio dental e um shampoo.
Boas recordações
Recordo de muitos momentos dessas viagens. Momentos emocionantes como no Musée d’Orsay, em Paris chorando em frente a um quadro do Renoir; momentos engraçados e gelados como tomar banho frio em Nova York com -2ºC e se dar conta de que não tinha levado toalha para o banheiro; momentos tristes e reflexivos como passar um dia num acampamento do movimento dos sem terra em Pernambuco; momentos inesquecíveis como uma chuva de estrelas cadentes em cima de uma duna no Ceará, ver 20 botos cor de rosa nadando no rio Amazonas; momentos tensos como se perder na periferia de Bancoc, na Tailândia, e ter de pegar um ônibus público sem falar Thai e sem ninguém por perto que falasse inglês; momentos doloridos como voar da bicicleta na chuva na linha do bonde em Amsterdã e destruir o joelho; momentos de profunda solidão, como ficar sozinho num quarto com 30 camas, no frio e na chuva de Veneza completamente vazia, sem minha mochila que estava perdida em algum aeroporto da Europa, se enxugando com uma fronha e usando a mesma cueca por 4 dias.
O importante não foram as viagens em si. Muitos viajam e muitos viajaram, mas existe uma enorme diferença entre deslocar seu corpo no espaço e deixar os espaços deslocarem você. Deixar-se ser transformado e mudado pelas experiências vividas é a alma de um verdadeiro andarilho.
Nesta coluna chamada Por Aí vou contar algumas histórias das minhas aventuras, com muitas dicas, ideias e pensamentos para quem quiser experimentar e viver suas próprias odisseias.
Viajar sozinho é uma jornada rumo a você mesmo. É navegar pelo oceano desconhecido das nossas emoções, é adentrar a floresta fechada dos nossos medos, é subir as montanhas geladas dos nossos pensamentos, é cruzar os desertos ardentes dos nossos desejos, é voar pelo céu estrelado dos nossos sonhos. Viajar é ir alem de nós, é sair para entrar, é partir para voltar e, finalmente, compreender que nunca saímos, que nunca voltamos, que sempre somos o que estamos. Para finalizar cito um trecho de O Andarilho, de Nietzche:
“Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra… ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem…”
Espero que vocês curtam, se inspirem e se divirtam com os textos desse andarilho nas próximas edições da Young. Nos vemos por aí…Gostou? me segue twitter.com/marcelosando marcelosando.blogspot.com
Texto: Marcelo Sando




Maysa Fragoso
20 de abril de 2010 às 20:58
Poderia aconselhar menos risco, mas ficariamos sem as experiências. Então… os riscos compensam tantas aventuras. Adorei a possibilidade de se permitir transforma-se a partir de lugares, culturas e pessoas…
Poliane
30 de abril de 2010 às 10:07
Maah, sempre com seus ensinamentos. Sejam eles, dados de maneiras mais sérias, ou como quase sempre, de formas engraçadas e otimistas!
Parabéns, adorei tudo que você escreveu.
ótimo trabalho, e boa sorte, em tudo!
Bruna Cavalcante
16 de maio de 2010 às 10:33
Parabéns Marcelo, pela a coragem de sair de casa e viver suas próprias aventuras, sem medo de ser feliz. Nessa mesma revista tem um artigo que fala sobre “o que ser quando crescer”, sinceramente ainda não sei, mas sei de uma coisa não quero ficar parada. Quero vivenciar muitas coisas,viajar muito,falar diferentes idiomas, descobrir lugares nuncas visitados antes, sentir emoçôes pelas quais nunca senti antes.
Uma das melhores matérias que já li…